06 abril 2011

Aposentar um dia...***


(image google)

Algumas pessoas são tão encantadoras... e que ao passar são capazes de deixar um leve e agradavel perfume no ar...
Pessoas especiais como você... querido e talentoso Paulo de Tarso***

Aposentar um dia

O muro da casa de esquina da rua sétima com a rua são José era onde ficava o gol, pintado na parede, fazíamos bolinha e só se podia chutar para o gol quando a bola passava por todos os que estavam na linha e isso sem que ela caísse ao chão antes, se o chute fosse para fora três vezes o ultimo que chutava virava goleiro, o que ninguém queria, isso era um jogo e se chamava embolotar o goleiro, acompanhou minha infância durante anos até eu começar a trabalhar.

Vou voltar ao ano de 1973, treze anos de idade e vivendo uma febre , o embolotar goleiro, minha vila foi privilegiada em relação a meninos, nessa idade nesta época ainda não se paquerava nem namorava como os de treze de hoje , então meninas não eram bem vinda como novas moradoras, meninos, sejam bem vindos e vamos lá jogar bola.

Adorava, ia para a escola e quando voltava passava a tarde toda lá , fazendo gols, errando gols e virando goleiro.

Vivíamos uma vida razoável, meu pai era fiscal da prefeitura de São Paulo e não nos faltavam nada mas para ele o trabalho tinha que começar cedo, não sei dizer ao certo, mas meu irmão dois anos mais velho que eu ao completar quinze anos começou a trabalhar, acho que eu ainda teria mas dois pela frente de pura infância, mas foi oque não aconteceu, culpa minha!

Meu irmão apesar de brigarmos muito tínhamos um ao outro como grandes parceiros, sentia muito sua ausência e ao começar a trabalhar perdi uma certa referencia do meu viver, penso hoje como eu amava este meu irmão e não sabia lidar com este sentimento, como ele fez falta.

Passado alguns dias fiz uma coisa que dificilmente fazia, procurei meu pai para conversar, para meus treze anos foram um sofrimento terrível de como começar aquela conversa por não haver um dialogo entre eu e meu pai.

-Pai quero trabalhar também!

Ah que prato cheio eu lhe dei, não deu dois dias e lá estava ele com a resposta.

-amanhã vou te levar até o belém, vai começar a trabalhar.

Que frio, que dor, que medo e agora que faço? Pensei.

Época de natal, minhas férias escolar foi para o beleléu, levantava as sete horas da manhã, tomava o banho, um café, descia até a avenida sapopemba, pegava o ônibus largo do belém, lotado, levava uns vinte e cinco minutos para chegar , e lá estava eu JOALHERIA ESTORIL, seu Antonio o dono da loja, seu Joaquim , irmão do dono, o Wilson, um alemão alto de cabelos cumpridos de seus vinte e poucos anos que todas as meninas do belém paqueravam e agora eu, depois entrou a Angélica.

E assim foram meus dias, meu primeiro emprego , minha joalheria, o ritual para este trabalho era de todos os dias ir almoçar em casa, uma hora de almoço, neste horário sem transito, levava quinze minutos para ir, quinze para voltar , então meia hora para almoçar assistindo ao globo esporte, colocava o prato na pia beijava minha mãe e ia, ia trabalhar, mas antes ia me ferrar, sim isso mesmo, para chegar ao ponto de ônibus passava antes pela rua são jose onde brincávamos de embolotar goleiro, ao sair da vila ai bem em direção deles que ali continuavam, eu , a cada passo mais me aproximava e como doía saber que chegaria pertinho e viraria a direita desceria a rua sétima e sumiria em meu sofrimento , não do trabalho mas sim o de não poder ficar ali e jogar, e assim eram todos os dias.

Até que a partir de uma certa data em diante uma coisa começou a acontecer, O Marcos da casa dezenove que tinha o apelido de zóinho começou a perceber meu sofrimento ao passar por lá e num gesto de moleque gozador que fazia parte da idade passou a tirar sarro de mim , todos os dias

  • VAI BOBÃO, VAI TRABALHAR, ENQUANTO VAMOS BRINCAR, HI HI IH......

    A dor só aumentou, passou a ser todos os dias o mesma piadinha, todos os dias até não agurentar mais.

  • Pai, não quero mais trabalhar!

  • Começou , não para mais, só quando aposentar!

  • Mas pai, eu gosto do trabalho, mas não agüento mais as gozações quando estou voltando do almoço para o trabalho!

Expliquei para meu pai o que estava acontecendo e simplesmente ele me disse.

  • diga ao zóinho que se você esta trabalhando cedo é porque você vai se aposentar cedo e ele vai se aposentar velho.

    Sorri e entendi, era noite quando ele falou isso comigo, fui dormir contente, levantei feliz , fui trabalhar animadíssimo, voltei para o almoço saltitando e comi toda a comida e ela ao passar pela minha língua se misturava com as palavras já preparadas para a resposta que meu pai me mostrou como resposta para o ZÓINHO.

    Coloquei o prato na pia, beijei minha mãe e fui, fechei o portão e comecei a caminhar em direção da rua são josé e lá estavam eles, a bola não caia, foi para a cabeça do Edson que tocou para o Min e eu andando e olhando, No Min a bola bateu em seu joelho que foi para o peito do Hamilton e eu caminhando, do Hamilton ela foi para seu pé que fez bolinhas e jogou bem para o alto e eu me aproximando e do alto antes que caísse para o chão foi para os pés do Marcos ou seja Zóinho que sem dó deu uma estilingada e fez um golaço o Júlio César, goleiro nem viu a bola passar e eu praticamente apenas perambulando , esperando sua comemoração e depois a gozação, e não deu outra, me viu chegando e correndo em minha direção pulou sobre mim como se eu estivesse comemorando com ele aquele gol, na verdade eu queria era sumir dali e.....mais alto do qu e nunca.....

  • - VAI BOBÃO, VAI TRABALHAR, ENQUANTO VAMOS BRINCAR, HI HI IH......

    E no mesmo momento empurrei ele e disse tudo oque estava pendurado na ponta de minha língua, mas só não foi da forma que eu queria, gaguejando e baixinho lhe disse....

-ooolha aaaquiqui , vou tete dizer uma coisa, toto trabalhando cecedo, e vovou parar cecedo, jájá você vavai começaçar tatarde e sósó vai parar quando velho e e lá eu vovou tata discançando seu bobobo.

Não só ele desta vez, mas todos que ali estavam começaram a caçoar de mim e daí em diante esta historia se apagou de minha mente, não lembro mais se continuaram a tirar sarro de mim, não lembro de mais nada.

O tempo passou, passou e passou e alguma coisa mudou.

Sim , a lei.

A alguns anos o governo percebendo os novo tempos perante a perspectiva de vida achou que tanto o homem como a mulher poderiam trabalhar mais anos , se reuniram , votaram e decidiram que a partir daquele momento nenhum homem com menos de 53 anos e nenhuma mulher com menos de 48 anos poderiam aposentar antes destas idade e teriam que ter as respectivos tempo de trabalho e assim todo aquele meu plano de começar a trabalhar cedo para aposentar cedo foi por agua a baixo.

Sei que estão se reunindo novamente para aumentar um pouco mais , dizem que temos condições de trabalhar muito mais, já eu , eu acho que não, queria tanto me aposentar com o que me foi de direito oferecido pela lei da época em que comecei.

Bom , essa é mais uma de minhas historias da minha vida, são tantas, algumas já contadas e tantas para contar, mas agora só uma coisa eu rezo muito.

É o de não encontrar com o Zóinho pela frente antes de me aposentar por que se ele me ver , no minimo vai dizer.

- E AI BOBÃO AINDA TRABALHANDO?

autor: Paulo de Tarso

O menino poeta que mereceu o carinho do Avalon em :
O Vendedor de Sonhos***

Um comentário:

Cacá - José Cláudio disse...

Os governos brasileiros primam-se por serem ladrões de sonhos. A gente faz um planejamento, dedica a vida inteira, cria uma expectativa e assim, por obra e graça de interesses inaceitáveis mudam a regra do jogo no meio do caminho. Isso ultrapassa a categoria do desrespeito. Algo inominável. A história no entanto, é belíssima, me deu saudade de minha infância distante mas muito feliz. Parabéns ao Paulo e parabéns pelo belo blog, Mel. Meu abraço grande. Paz e bem.